Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

A redonda celebração do Guimarães Jazz (2)

                                                                                                      

Entre as linhas de programação que, ao longo dos anos, têm caracterizado as sucessivas edições do Guimarães Jazz, a presença regular de músicos portugueses é das que encerra maior significado.  E ela tem sido assegurada, de variadas formas, sobretudo ao nível da cooperação entre os nossos músicos e os músicos estrangeiros, tanto no âmbito da formação de uma big band internacional que, em edições passadas, atuou sob a direção de consagrados maestros internacionais como, mais recentemente, na colaboração que o festival estabeleceu com a editora independente portuguesa Tone of a Pitch, parceria já aqui referida na primeira crónica sobre o Guimarães Jazz deste ano.

 

Mas mais importante, ainda, em termos da divulgação teórica e prática do jazz, vem sendo uma outra iniciativa que todos os anos coloca em contacto com um conjunto de músicos convidados residentes, ao longo de um workshop que se realiza durante a totalidade dos dias do festival e sua pausa intermédia, dezena e meia de alunos de jazz da ESMAE, Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (Porto), naquele que me parece ser um reflexo e uma justa consagração do excelente trabalho que se está a fazer no Norte do país neste domínio musical, em termos de oferta e procura e do reforço de uma indispensável massa crítica.

 

{Deixem-me, a propósito, que aqui saliente também, num parêntesis que me parece oportuno, uma outra vertente dessa multifacetada e importante atividade do jazz nortenho, agora de caráter associativo, representada por exemplo pela Associação Porta Jazz que recentemente organizou no Porto o seu segundo festival cuja relevância justamente sublinhou há dias António Curvelo, ex-crítico de jazz do jornal Público, tal como pode ler-se nesta crónica publicada no sítio JazzLogical e para a qual, com a devida vénia, remeto a atenção do leitor.}

 

Regressando a Guimarães, foi então bastante emocionante assistir, na matiné de sábado 19, ao concerto que a Big Band da ESMAE realizou no Auditório 2 do Centro Cultural Vila Flor.  Por vários motivos que aqui alinho, sem cuidar da sua ordem de importância: 

 

pela revelação do bom trabalho docente prévio e do consequente à-vontade coletivo  (e até individual, nos solistas que se destacaram)  por parte dos alunos que a constituíram;

 

pelo evidente gozo e realização pessoal dos seus mentores conjunturais de workshop, todos eles músicos de primeira linha na atual cena do jazz norte-americano;

 

e pela inesperada revelação de características que ignorávamos  (e agora desvendámos)  nas próprias capacidades de composição e orquestração destes últimos, claramente também aqui experimentando em áreas que porventura lhes estão “vedadas” nas suas quotidianas vidas profissionais.

 

 

De facto, não deixou de ser extremamente curioso  (e também comovente)  deparar com a “desajeitada” e “tímida” função de direção de orquestra por parte de um Drew Gress, contrabaixista dos maiores atuais e  (tal como se ouviu)  imaginativo compositor de peças como Long Story Short ou In Streamline;  surpreender a complexa escrita instrumental do pianista Andy Milne, que muito positivamente impressionou com a peça It Depends, Dance Daze;  ou confirmar a já conhecida veia composicional do trompetista Ralph Alessi  (War Science),  embora desta vez num contexto instrumental mais alargado e menos divulgado.  Isto para já não falar da sua própria integração antivedeta  (como par entre pares)  no naipe de trompetes da orquestra.

 

 

Perante os inegáveis bons resultados e boas surpresas deste concerto, digamos que o único senão foi a não referência, por Alessi ou qualquer outro dos mentores do workshop, aos nomes dos jovens músicos que constituíram a big band, todos eles desconhecidos, tanto quanto me pareceu, de anteriores presenças em Guimarães.

 

 

Ralph Alessi já estivera, aliás, em primeiro plano, e também pela positiva, naquele que terá sido o mais estimulante concerto de todo o festival e que inaugurara, em 16 de Novembro, a segunda parte do mesmo.  Apresentando-se em palco ladeado pelos já referidos Drew Gress  (contrabaixo)  e Andy Milne  (piano),  Alessi teve ainda como companheiros no concerto, no workshop e nas jam sessions do festival, o multidisciplinar Mark Ferber (bateria) e o inspiradíssimo Tony Malaby (sax-tenor), mais duas presenças de luxo de um quinteto com curiosa denominação: This Against That.

 

Tal como se esperaria, estivemos nesta atuação perante uma sucessão de originais que, seguindo aliás um alinhamento progressivamente exigente e em crescendo de intensidade e vigor, deram a conhecer de forma exemplar algumas pistas para o entendimento de uma nova modernidade no jazz atual, enquanto síntese competente, ampla e não sectária dos ecos identitários e das múltiplas direções estéticas que constroem nos dias de hoje a cultura acumulada do jazz.

 

Dando largo e importante lastro à presença de uma inovadora linguagem de composição e instrumentação  (se considerarmos tratar-se de uma formação das mais “clássicas”:  quinteto de dois sopros e secção rítmica)  mas deixando ao mesmo tempo um largo espaço à improvisação sujeita a mote ou subvertida pelos desvios aleatórios, Ralph Alessi e seus companheiros demonstraram como se pode estar por dentro do jazz inequívoco, mesmo naqueles momentos em que o aprofundamento da composição roça a concentração e os rigores camerísticos ou, pelo contrário, o ímpeto e o contágio da aventura nos levam a partir para o desconhecido.

 

Pensando nas cinco personalidades que formaram este quinteto, não pode deixar de salientar-se, mais uma vez — como característica fundamental que, em geral, encontramos nos mais interessantes jazzmen dos nossos dias —, a abertura e multidisciplinaridade das suas apostas estéticas e a convergência da sua criatividade individual com os vários tipos de projetos em que se inserem, sejam estes da sua lavra ou da iniciativa de terceiros. 

 

É assim que, de entre todos eles, confirmada à partida a qualidade individual de Ralph Alessi e Drew Gress, se tornou particularmente impressivo o singular bom senso e adequação estética de Andy Milne e Tony Malaby à música do líder, exibindo o primeiro uma postura e uma linguagem pianística totalmente diferentes da que desenvolve, por exemplo, nos Five Elements de Steve Coleman, ou avançando o segundo um admirável e apurado discurso pessoal, na sensibilidade melódica que envolve os seus solos, nos vários cambiantes tímbricos da sonoridade e até na fúria controlada ou extrovertida com que insinua  (ao serviço de uma criação coletiva)  a sua contagiante presença.

 

Aliás, o melhor elogio que se poderia associar à personalidade musical de Malaby é a impossibilidade prática de mencionar um único nome de um grande mestre que se detete  (como influência clara)  na formulação do seu estilo e na expressão da sua voz instrumental.  O que é obra!

                                                                              

Já o concerto que o contrabaixista e compositor William Parker nos propôs para encerrar o Guimarães Jazz justifica, quanto a mim, que se desmistifiquem de forma resoluta certas ideias-feitas, quantas vezes baseadas na pura ignorância e na apologia acrítica de tudo o que se afigura ilusoriamente como "novo" ou se constitui alegadamente como uma aposta no "risco".

 

Pese embora a epígrafe do próprio concerto — Essence of Ellington — e jamais esperando que da parte de um músico criativo se exigisse ou nos fosse proposto um mero e absurdo decalque da música do grande mestre  (era só o que faltava!),  o facto é que nada da essência musical, artística e cultural de Ellington terá perpassado sequer pelo palco, mesmo que ideológica e culturalmente transfigurada à luz do mundo, da sociedade ou do jazz do nosso tempo, como seria natural.

 

Se se quiser, aliás, constatar a total desadequação dos títulos programáticos de certas peças aos concretos conteúdos musicais das mesmas, basta sublinhar como Peace for Brother Jimmy Blanton, For Billy Strayhorn, Civil Rights/Waltz for Max & Sonny ou Thoughts for the Mountain (For Ben Webster) — os quatro originais que nos foram propostos por William Parker e seus pares — em muito pouco se distinguiram, precisamente na sua essência, uns dos outros, antes constituíram  (é preciso dizê-lo!)  um cardápio da mais requentada e revivalista vulgata do free-jazz de saudosa memória, quando não um aproveitamento que resultou duvidoso dos nomes de grandes vultos do jazz ou de ideias e causas nobres credoras do maior respeito.

 

Multiplicando nos rituais de palco a já muito batida cena da direção coletiva ou partilhada, atribuindo por vezes a Steve Swell, Darius Jones ou Dave Sewellson o artificioso gesto de dirigir ou suscitar, de tempos a tempos, a produção vertical e síncrona de clusters aleatórios de péssimo gosto — que constituiriam um metafórico "ponto de encontro" ou se destinariam a "domar" ciclicamente o caos instrumental e sónico forçado de modo arbitrário pela improvisação simultânea ou fragmentada dos vários solistas —,  a correnteza de lugares comuns a que nos foi dado assistir foi ainda um insulto à própria ideia de composição, ilusoriamente exibida em meia dúzia de pautas depositadas em meia dúzia de estantes.  E o crítico analisa aquilo que ouve e vê!

 

 

Só é pena que nomes que nos habituámos a admirar ou a procurar compreender e respeitar em diversas etapas do seu percurso musical  — como Rob Brown, Dave Burrell, John Betch, Roy Campbell  (que tragédia, vê-lo assim em palco!)  ou o próprio William Parker —  não consigam ou não tenham conseguido estar à altura do prestígio alcançado.  É bem certo que a vida está difícil mas nem tudo ajuda a explicar o inexplicável!

 

Pelo contrário, a seriedade e a genuína invenção de Henry Threadgill e do seu coletivo Zooid tinha suscitado na véspera o reconhecimento que é devido a um dos mais justamente admirados instrumentistas e compositores das vanguardas dos anos de 1970 em diante, ele mesmo membro destacado entre os principais animadores e agitadores da histórica AACM, Association for the Advancement of Creative Musicians, fundada em Chicago num tempo e num espaço em que fervilhavam novos conceitos e atitudes no jazz moderno e em que o primado da livre improvisação individual e coletiva se sobrepunha aos rigores da organização composicional.

 

Daí, a singularidade do exigente trajeto de Threadgill, tal como o foram os de outros compositores como Anthony Braxton, Roscoe Mitchell, Andrew Hill ou Muhal Richard Abrams, para apenas citar alguns dos mais iluminados vanguardistas da segunda metade da história do jazz, não por acaso inspiradores  (em maior ou menor grau e na esteira de Ellington, Monk, Mingus ou Tristano)  dos mais inspirados músicos das novas gerações.  Pensar em Henry Threadgill é, por exemplo, despistar a sua influência em Steve Coleman  (anos 80)  ou em Rudresh Mahanthappa  (anos 2000).

 

 

Procurando, tal como se conhece da sua obra de anos, aliar um jazz de configuração erudita com o beat e os sinais muito dispersos da música popular ou religiosa afro-americana, contrapondo de forma soberana a improvisação e a composição e, como também lhe é seu hábito, tirando partido e proveito de raras aglomerações instrumentais  (como é o caso da guitarra acústica associada ao violoncelo ou à tuba ou a utilização pelo próprio Threadgill da pouco usada e insinuante flauta-baixo),  o mestre deixou-nos ficar, depois da sua atuação e na diversidade das suas formas, com as boas memórias de To Undertake my Corners Open, So Pleased no One ou After Some Time, exemplos mais salientes de um reportório e de uma arte que se reafirmou rara e inconfundível.

________________________________________

 

Fotos dos concertos:  cortesia de  A Oficina e  © João Peixoto

 


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 12:30
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